REVELAÇÕES
Em quase todas as construções monumentais antigas se encontra a marca da fraternidade secreta, de seu simbolismo, bem como também de suas aspirações religiosas, que eram opostas às do clero, cada dia mais corrompido de costumes e do que em muitos pontos diferiam essencialmente da doutrina ortodoxa da Igreja.
Assim se vê na igreja de São Sebaldo em Nuremberg, uma sepultura na que se representam um monge e uma religiosa em atitude inconveniente. Em Estrasburgo, na galeria superior da catedral, via-se um porco e um carneiro levando, como uma relíquia, uma raposa dormindo; seguia a estes uma cachorra e precediam ao cortejo um urso e um lobo, levando aquele uma cruz e este um círio acendido. No altar um asno celebrava a missa.
Na cúpula de Würzbourg se encontram as famosas colunas J. e B. que tinham colocado no pórtico do templo de Salomão. Na igreja de Doberan, no Mecklembour se encontram vários duplos triângulos colocados em lugares significativos e sobre as colunas três folhas de parra atadas em forma maçônica.
Também se vê um retábulo bem conservado, que denuncia as opiniões religiosas do mestre construtor: no primeiro termo três sacerdotes dão voltas a um moinho em que se trabalha o ensino dogmático: sobre estes personagens está a Santa Virgem e o menino Jesus que apresenta sobre seu peito uma estrela luminosa, e embaixo a representação da Santa cena, à que assistem os apóstolos em atitude bem conhecida pelos franco-maçons, etc., etc.
Em outra igreja gótica se vê uma representação irônica da aparição do Espírito Santo. Na de Brandebourg uma raposa revestida com os ornamentos sacerdotais, prega a uma manada de gansos. Na catedral de Berna se representa o Juízo final e entre as mulheres figura um papa, etc. etc.
As corporações de obreiros construtores existiam numa época em que se achavam mais florescentes o ensino ortodoxo da Igreja e suas instituições e em do que o papado vivia sua idade de ouro; mas em que ao próprio tempo, tinha-se que lutar energicamente contra a onda crescente de luzes que se espalhavam por todos os lados e contra um número imenso de seitas heréticas, gnóstico-maniqueas, nascidas em parte antes do cristianismo (os cátaros, os albigenses, os valdenses); numa época em que os adeptos destas seitas e seus filiados percorriam a Europa inteira, fundando outras novas e convertendo a suas crenças, não só aos nobres, aos homens livres, aos cidadãos e aos mercadores, senão que também às freiras, aos abades e aos bispos; numa época em que a razão se preparava em silêncio a sacudir o jugo opressor, e a descobrir no meio das trevas gerais, a luz da verdade.
Nem as excomunhões, nem os entreditos, nem as fogueiras puderam deter ou reprimir a evolução intelectual do gênero humano.
Os canteiros alemães não podiam naturalmente manter-se estranhos a este movimento reformador, e é indubitável que muitos tomaram parte ativa nele: este fato está sobradamente provado na natureza dos assuntos que vemos representados em algumas de suas obras, das que citamos as principais.
Sua profissão lhes punha em contato com todas as classes da sociedade, deixava-lhes conhecer o sistema da Igreja e lhes fazia testemunhas da degeneração do clero; também por sua mesma profissão, encontrava-se colocados a maior nível do que a maioria de suas concidadãos e suas viagens durante o tempo que eram parceiros, nos que percorriam, não só a Europa, senão as vezes os povos mais longínquos do Oriente, familiarizavam-nos também com diferentes opiniões religiosas e com a interpretação mais pura do cristianismo.
Em todo caso, aprendiam a prática da tolerância, de maneira que as lojas eram um asilo seguro para os Livres Pensadores e para os perseguidos pelo fanatismo clerical. Os membros das corporações os acolhiam a todos, a condição de que fossem bons virtuosos e hábeis no exercício de sua profissão, e os extraíam às pesquisas da Santa Inquisição, o que lhes era tanto mais fácil, quanto que nenhuma classe da sociedade, nenhum estado podia iludir os serviços dos maçons funcionários, circunstância que lhes fazia menos suspeitos à Igreja.
Fonte: Maçonaria – Dos Canteiros aos Templos

